Após 15 anos, Agesandro se prepara para deixar OAB-ES
Vitória, 04/12/2006 - A fala pausada e o tom firme continuam os mesmos. O vigor dos anos em que se posicionou como um dos personagens principais na luta contra o crime organizado no Estado também. A mudança está apenas na função. Faltando pouco menos de um mês para deixar o cargo que ocupou nos últimos quinze anos, o presidente da Seccional do Espírito Santo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Agesandro da Costa Pereira, revela temores que o atormentaram nos anos em que "a crise moral e ética se abateu sob o estado". Fala de cidadania, sacrifício e de projeções para o futuro.
Comprometido com a luta pelos direitos humanos desde que ingressou na OAB, em 1954, Agesandro estimulou a criação do Fórum Permanente contra a Violência e a Impunidade, em outubro de 1999. A entidade contribuiu para que a CPI Federal do Narcotráfico atuasse no Estado, desencadeando um processo de desarticulação do crime organizado. "Houve época em que meus amigos tinham medo de estar próximos de mim. Eu dormia temendo não amanhecer o próximo dia. Poucos compartilharam dessa minha dor", conta emocionado. "Exerci a presidência com zelo e muito sacrifício. Eu só espero que aquele tempo em que o crime organizado dominava o Estado nunca mais volte".
Entre feitos memoráveis, Agesandro foi relator do Regimento Interno da Comissão de Direitos Humanos em 1985 e ampliou a Comissão de Direitos Humanos em 1991, investigando denúncias de tortura em presídios e de espancamento de menores. Mesmo deixando o cargo, Agesandro não pretende deixar a Ordem e o trabalho que vem realizando. "Sou advogado há 53 anos. Teve vez de acumular a advocacia, com a presidência e a universidade, onde era professor. Continuo essa fortaleza física". Eleito pelos advogados, Agesandro ocupará a partir de primeiro de fevereiro do próximo ano uma vaga de conselheiro federal da OAB.
O segredo? "Todo dia depois do almoço, às vezes à noite, tomo uma ‘tacinha’ de vinho", confessa. Casado há 46 anos, pai de quatro filhos e um homem religioso, Agesandro diz ter poucos momentos de lazer. "Faz tempo que não tenho domingos ou feriados. Minhas últimas férias foram em junho de 2005. Quando estou livre gosto de música, literatura, teatro, artes e de pescar", revelou. Tímido, ele conta que ouve Beethoven, especialmente as 9ª e 5ª Sinfonias. Por mais surpreendente que possa ser, nas horas vagas, ele lê Pontes de Miranda, um conceituado autor de livros de Direito.
Agesandro resume o empenho que teve frente à Ordem com uma lição de cidadania. "Numa passagem interessante da posse de Kennedy ele diz que, no momento, era preciso perguntar não o que o EUA podia fazer para os cidadãos, mas o que os americanos poderiam fazer pelos EUA. Nós todos queremos saber o que o país pode fazer por nós mas não queremos enxergar o que nós podemos fazer pelo país".
Agesandro da Costa Pereira, nascido em 22 de dezembro de 1929, em Araçuaí (MG), é casado com Maria das Graças Carvalho Pereira há 46 anos. Se formou bacharel em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1953. Um ano depois, se inscreveu na Ordem dos Advogados do Brasil, seção Minas Gerais. Em 1968, na Seção do Espírito Santo. Foi Procurador do Estado de 1982 a 1991, quando assumiu a presidência da OAB-ES, onde ampliou a Comissão de Direitos Humanos. Em 1999, fomentou a criação do Fórum Permanente contra a Violência e a Impunidade, que desencadeou um processo de desarticulação do crime organizado no Estado.
