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Padre Boeing denuncia: sua morte vale R$ 50 mil

sexta-feira, 3 de novembro de 2006 às 07h32

Salvador (BA), 03/11/2006 – O valor estipulado pelo assassinato do frei e advogado Henri Burin dez Roziers, de 75 anos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e pela morte de qualquer religioso que atue na luta em prol dos direitos humanos no Pará é de R$ 100 mil e R$ 50 mil, respectivamente. A denúncia foi feita pelo padre e também advogado José Boeing, ao participar do painel “Defesa da Defesa no Brasil”, parte da programação do 50º Congresso da União Internacional dos Advogados (UIA), realizado em Salvador (BA). O padre Boeing também é ligado à CPT e vive em Xinguara, no Pará. Ele atuava na defesa dos direitos de trabalhadores do Pará ao lado da missionária norte-americana Dorothy Stang, assassinada a tiros em 12 de fevereiro de 2005 no município de Anapu.

Os valores denunciados pelo padre Boeing são, segundo ele, de conhecimento de qualquer grileiro, fazendeiro e de qualquer trabalhador que viva na região de conflitos pela posse de terras no sudeste do Pará. Além dos valores para a eliminação de alvos como o frei Henri dez Roziers e de padres como ele, Boeing citou ainda os “preços” costumeiramente conhecidos para assassinatos de sindicalistas – R$ 10 mil – e de posseiros e lavradores – $ 5 mil – no Estado.

Os valores foram denunciados, causando perplexidade aos debatedores estrangeiros, durante o painel “Defesa da Defesa”, parte da programação do 50º Congresso da UIA. O painel foi focado nos profissionais da advocacia que trabalham na defesa da integridade de pessoas ligadas à garantia dos direitos humanos e de trabalhadores da Amazônia. Ainda segundo o alerta feito por Boeing, o frei Henri Burin dez Roziers é, hoje, o principal integrante da lista de marcados para morrer no sudeste do Pará.

Ele relatou que, de 1994 a 2004, foi registrada pela CPT a ocorrência de 173 assassinatos e de 501 ferimentos a envolvidos na luta pelos direitos humanos e contra grileiros no Pará. Os dados integram um relatório que foi entregue pela CPT à Organização das Nações Unidas (ONU) e que resultou na orientação do órgão internacional para que fosse criada no Estado a Comissão de Proteção dos Defensores dos Direitos Humanos. Uma semana depois da criação dessa Comissão, Dorothy Stang foi morta em Anapu. “Ela morreu porque apresentou denúncias contra as mesmas pessoas que a mataram”, disse o religioso.

Ainda conforme as estatísticas apresentadas por Boeing no Congresso da UIA, 57 crimes contra defensores de direitos humanos constam do relato entregue à ONU. Desses, 20% ainda não foram transformados em processo judicial ou sequer motivaram a tomada de qualquer medida de segurança por parte do governo. “Não temos forças para defender os direitos dos trabalhadores da Amazônia pela via legal, pela via judicial. Precisamos de ajuda”, pediu o padre.

Durante o evento, Boeing abordou, ainda, questões como a concentração de terras no Pará, a tomada de áreas por grileiros, a exploração ilegal de fontes naturais na Amazônia e medidas violentas e expulsões em série de trabalhadores sem-terra.

Participaram do painel “Defesa da Defesa no Brasil” ao lado do padre José Boeing o membro efetivo da Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e consultor da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Joelson Dias, a assistente para Direitos Humanos e Defesa de Bruxelas, Julie Goffin, e o advogado Técio Lins e Silva, do Rio de Janeiro. O integrante da UIA, Paul Nemo, presidiu o painel. O Congresso, que teve início na noite da última terça-feira (31) terá sua programação científica encerrada hoje.

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