Simon apóia CPI da Navalha e teme por insubordinação civil
Brasília, 23/05/2007 – Ao concordar hoje (23) com a proposta do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, de se instalar imediatamente a CPI das Navalhas para apurar o envolvimento fraudulento de empreiteiros com membros do Executivo e do Legislativo, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) afirmou que a sociedade brasileira está saturada com tantos escândalos e, se continuarmos vivendo no país da impunidade, “o povo vai partir para a insubordinação civil”. Ele acrescentou que “temos dois Brasis: o Brasil paralelo, que é o que funciona, onde não tem lei, não tem Judiciário, não tem coisa nenhuma, e o Brasil oficial que cada vez funciona menos, cada vez tem menos credibilidade”.
Bastante deprimido com a situação vexatória do país, o senador Simon disse que vai chegar o momento que o cidadão vai se perguntar: “por que eu vou pagar imposto, porque vou fazer a minha parte se ninguém está fazendo a sua parte”. Ele disse, ainda, que “podemos partir para um movimento muito grave, muito sério, de condições imprevisíveis. O que pode acontecer eu não sei. Se me perguntarem se há uma crise institucional, movimento militar tramando alguma coisa, respondo que não tem nada. Mas se me perguntarem se o povo está saturado, a sociedade está saturada, responderei que sim. Há um nojo, uma revolta, há uma indiferença em toda a sociedade brasileira e alguma coisa vai acontecer, isso vai”.
Segue o depoimento do senador Pedro Simon durante entrevista à rádio CBN:
P- Senador Pedro Simon, o senhor chegou a propor em passado a instalação da CPI das Empreiteiras ?
R- Sim. Foram duas vezes que propus essa CPI das Empreiteiras. A primeira vez foi depois da CPI dos Anões do Orçamento quando ficou provado a ação das empreiteiras. Fizemos um movimento enorme para que fosse instalada a CPI das Empreiteiras. Lamentavelmente o governo da época vetou – e vetou radicalmente – o nosso pedido. O que é mais grave é que já naquela época tínhamos todas as provas e se criássemos essa CPI era para trabalhar em cima das provas que foram encontradas durante a CPI dos Anões do Orçamento. Houve um momento dentro daquela CPI que havia um verdadeiro exagero de provas, um exagero de denúncias, um exagero de fatos comprovados. Então, senti nitidamente que havia um movimento para impedir para que se prorrogasse o prazo de vigência da CPI. Por uma decisão minha, e que hoje me arrependo muito, de restringir apenas aos parlamentares porque ficaríamos com autoridade para,posteriormente, pedir uma CPI para apurar o envolvimento dos empreiteiros. O que aconteceu: foram cassados cerca de 15 parlamentares mas na hora da CPI das Empreiteiras o governo federal impediu. Agora, estamos vendo uma repetição dos fatos. Vou ser muito sincero, estamos vivendo uma fase que não sei para onde estamos indo. Vamos criar uma CPI das Empreiteiras ? Vamos criar a CPI. Vamos apurar ? Sim, vamos apurar. Mas é uma repetição de tudo o que aconteceu no passado. A desmoralização da sociedade está tão grande, o conceito dos parlamentares é praticamente zero, as nomeações de parlamentares para as CPIs – eu, por exemplo, há muito tempo não sou nomeado para qualquer CPI porque só se nomeia as pessoas da absoluta confiança da liderança, da absoluta confiança do governo que leva, faz de conta, finge, mente e não resolve nada. Por outro lado, precisamos encontrar uma fórmula de julgar todos os criminosos, não apenas o ladrão de galinha que é o único neste país que vai para a cadeia. Os demais, lamentavelmente, não acontece nada. Os chamados julgamentos de fórum especial não podem continuar. O Supremo Tribunal Federal ficando com os processos na gaveta e não decidindo nada, não pode continuar. Se o STF não tem condições de julgar os ministros, os parlamentares, é preciso se criar com urgência-urgentíssima uma Corte Especial especificamente para fazer esse trabalho. O que acontece; somente o Procurador-Geral da República, Antonio Fernando, no caso dos “mensaleiros” apresentou denúncias concretas contra inúmeros parlamentares e políticos em geral. Resultado: não aconteceu nada. Nada é julgado. Nada é resolvido. Essa empreiteira Gautama é dirigida por um cidadão que era Executivo de uma das maiores empreiteiras do país e que todos sabem qual é. Se ele, que começou a atuar há pouco tempo nesta área já está nessa situação, imagine o que está acontecendo com as grande empreiteiras. O nosso orçamento é um orçamento ridículo, desmoralizado. Estou há 25 anos no Senado. Há 25 anos não apresentei uma única emenda pessoal porque sei que a emenda pessoal é um escândalo, é uma bandalheira. Na minha opinião, ou a sociedade, os jovens, vão para as ruas, fazem um movimento do verde-amarelo, e pressionem o Congresso, cuja credibilidade é 1,1, o próprio Judiciário que já era, mas hoje lamentavelmente está quase no nível do Congresso Nacional, ou não sei onde vamos parar. Nunca estive numa fase tão deprimida, sem saber o que fazer. Se continuarmos nessa situação atual vamos partir para a insubordinação civil. Temos dois Brasis: o Brasil paralelo, que é o que funciona, onde não tem lei, não tem Judiciário, não tem coisa nenhuma, e o Brasil oficial que cada vez funciona menos, cada vez tem menos credibilidade. Vai chegar o momento que o cidadão vai se perguntar: por que eu vou pagar imposto, porque vou fazer a minha parte e ninguém está fazendo a sua parte. Podemos partir para um movimento muito grave, muito sério, de condições imprevisíveis. O que pode acontecer eu não sei. Se me perguntarem se há uma crise institucional, movimento militar tramando alguma coisa, respondo que não tem nada. Mas se me perguntarem se o povo está saturado, a sociedade está saturada, responderei que sim. Há um nojo, uma revolta, há uma indiferença em toda a sociedade brasileira e alguma coisa vai acontecer, vai. Acho que é preciso se criar um movimento, sem partido político, com a sociedade cobrando que se faça algo para sairmos dessa situação lamentável. No Brasil estamos precisando de uma Operação Mãos Limpas, como ocorreu na Itália, onde políticos, empresários foram para a cadeia; onde o Judiciário foi atingido e fizeram uma limpa para valer. O conceito mudou. A realidade mudou. No Brasil não temos mais confiança no STF por causa da lentidão nos julgamentos dos processos. Além disso, estão aparecendo cada vez mais no Judiciário casos de venda de sentença e a Polícia Federal se transformou no juiz das causas porque está com credibilidade. Agora, qual o caminho que a Polícia Federal está seguindo, qual a sua orientação, daqui a pouco vai se transformar numa polícia política. Repito: estamos seguindo para um caminho muito perigoso.